Ensaios de uma cientista: quem é você?
não vale citar a profissão!
Bem, eu tenho ensaiado (com o perdão do trocadilho) começar esse quadro (?) há um tempo já. A verdade é que tenho uma coleção de reflexões escritas em momentos quase sempre de indignação (alguns de contemplação e insights), mas quando volto para ler… hum… será que posto isso?
No entanto, a vontade de escrever e espalhar ideias para o mundo está ali, sempre esteve e aparentemente, sempre estará.
Então em meio a esses roteiros inacabados e palavras soltas, qual seria o primeiro tema sobre o qual eu poderia discorrer? (tan, tan, tan taaaaaan, minutos de reflexão…)
“Me fale sobre você?”, foi uma pergunta que a minha psicóloga fez em determinado momento durante uma jornada tentando recuperar a minha esperança no que eu fazia. É claro, eu deveria me “apresentar” sem falar da minha profissão, ou pelo menos, ir além da resposta: sou cientista.
O ponto era iniciar a tão temida conversa: a sua profissão não te define. Dizer isso a um cientista é um tanto quanto tenebroso, a gente não sabe bem os limites entre a nossa vida e a nossa vida profissional. A gente pensa em trabalho o tempo todo… Vemos trabalho em todo o lugar… Algo que imagino que artistas e professores também passam. A armadilha de que trabalhamos por amor, por vocação, e isso nos define (?).
Bem, se a profissão não me define, por que ainda estou percorrendo esse sonho tão distante? Se a profissão não me define, por que continuo sofrendo nessa bolha chamada “vida” acadêmica? O intuito era mostrar para mim que eu não sou (apenas) minhas conquistas e fracassos profissionais, a vida não pode ser definida por metas profissionais (apenas). Então como já estava em uma fase bem frustrada com a academia, **sem ver perspectivas e alegria, meio perdendo sentido, comecei a me questionar: se eu não sou cientista, por que continuo aqui?
Refletí por meses. Até que fui construindo o sentido da coisa: acho que resignificando seria a palavra? E aqui vai como resolvi essa charada.
No apartamento em que estávamos morando no Canadá, eu abri mão de ter uma escrivaninha. Pós-período COVID, pensei que não queria levar trabalho para casa, então uma escrivaninha não faria a diferença. Na verdade fez. Sem escrivaninha em casa eu sentia um vazio (que drama). E percebi que usava a escrivaninha, ou um cantinho mais intelectual/biblioteca/bagunça/ateliê, para desenvolver minhas ideias, escrever, ler, passar tempo, fazia minhas coisas nos caderninhos.
Foi então que me dei conta de que esse “estilo” de sempre estar rodeada de livros e cadernos, rabiscos e coisas de papelaria, me definia. Eu era isso! Sempre fui. E por acaso, mas não muito, a minha profissão segue esse perfil. Foi num desses momentos que percebi que a minha profissão não me define. Mas minha personalidade, minhas características e interesses, me ajudaram a escolher uma profissão que está super alinhada a isso. E é aí que mora a armadilha.
Ok, foram outros meses me observando e notando o quão “cientista” eu era fora do trabalho. Eu gosto de pesquisar, de ler, de buscar coisas, curiosidades, conhecimento, saberes, ir a fundo, documentários, escrever, criar, viajar em novas possibilidades, questionar, observar o mundo. Palavras soltas das coisas que eu gosto de fazer nos momentos em que não estou tralhando (formalmente).
Desde pequena eu acumulava livros, resvistas, criava caderninhos para as minhas anotações. E isso vai além da minha profissão, ao mesmo tempo que pode ser facilmente confundida com ela.
Bem, agora parece até óbvio para mim, consigo facilmente me separar da minha profissão formal, e entender que as métricas e frustrações da carreira não me definem. E viver livremente a “cientista amadora interessada no mundo” em tempo integral: sem métricas, sem cobranças, apenas viajar nas possibilidades dos saberes. São séculos de conhecimento acumulado e que privilégio poder desfrutar disso numa existência tão curta: para mim, esse é o sentido de viver.
Espero que essa reflexão ajude algum cientista aí tentando encontrar sentido em melhor entender e separar o cientista pesquisador formal, do cientista nato que habita no seu coração 🫶.
Com isso, consegui entender que sou uma pessoa interessada, curiosa, inquieta, querendo aprender, engajada, empolgada. Características que também ajudam na minha profissão, mas mais ainda: são as lentes com que eu enxergo e experencio o mundo.